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CHANEL

A leonina Gabrielle Bonheur Chanel, ou simplesmente Coco Chanel (1883–1971), talvez seja a estilista mais pop de todos os tempos. Francesa, perdeu a mãe precocemente e foi abandonada pelo pai, junto com as irmãs, num colégio interno, de onde saiu aos 20 anos decidida a ser atriz ou bailarina. Logo ela se inseriu no grand monde e conheceu um de seus grandes amores, o milionário inglês Boy Capel, que morreu precocemente em um acidente de carro. Graças a ele, Chanel abriu seu primeiro negócio, uma loja de chapéus em 1910. Suas criações conquistaram a alta sociedade parisiense e as portas começaram a se abrir.

No início dos anos 20, já com sua maison de costura, Chanel rendeu pano pra manga ao decretar o uso de calças para a mulher e ao fazer do jérsei tecido nobre – levando-o da roupa íntima para a roupa em si. Com isso, criava vestidos confortáveis que vinham de encontro ao liberalismo feminino e ao fim do espartilho. Suas roupas passaram a vestir grandes atrizes de Hollywood e seu estilo ditava regra em todo o planeta. Seus tailleurs são cobiçados até hoje, assim como sua idéia de elegância baseada no “pretinho básico” – referência ao carro Ford preto lançado na época.

Visionária, Chanel desenvolveu grandes perfumes, como o Nº5, o mais vendido da história. Nas recentes campanhas do Nº5, a Maison, sob a batuta de Karl Lagerfeld há mais de 25 anos, vem inovando ao apostar em grandes nomes de diretores de cinema e atrizes hollywoodianas, como Nicole Kidman.

Sua vida pessoal foi tão intensa e revolucionária quanto suas criações. Chanel colecionou amantes – todos ricos – mas nunca se casou, por isso o “mademoiselle” sempre acompanha seu nome. A trajetória da pobre menina órfã que virou sinônimo de elegância é tema de inúmeras biografias, em livros, teatro e filmes. Os mais novos são “Coco Avant Chanel”, com Audrey Tatou, e “Coco Chanel e Igor Stravinsky”, com Anna Mouglalis, que, claro, fala de um dos romances de sua vida.

CHRISTIAN DIOR

O francês Christian Dior (21/01/1905 – 24/12/1957) ocupa lugar de destaque no panteão dos grandes mestres da moda do último século. Criador do New Look, cuja silhueta sacudiu costumes em 1947 com sua cintura marcada, formas estruturadas e comprimento pelo joelho, Dior nasceu na Normandia, de família classe alta. Contrariando a vontade dos pais, que o queriam diplomata, abriu uma galeria de arte depois de se formar em Ciências Políticas, mas logo teve que abandonar o negócio, em 1937, por causa da falência do pai.

Dior só foi se estabelecer mesmo dez anos depois, ao lançar sua célebre primeira coleção, se tornando referência dos novos tempos do pós-guerra. Dior gostava de batizar suas coleções com letras – A, H, I - baseado na forma das novas silhuetas que propunha. Seu sucesso durou também exatos dez anos, já que morreu aos 52 anos de ataque cardíaco, tendo Yves Saint Laurent como seu assistente. Hoje, a Christian Dior pertence ao grupo LVMH e conta com mais de 160 butiques espalhadas pelo mundo. Desde 1997, depois de Marc Bohan e Gianfranco Ferré, o responsável pela criação é o performático estilista inglês John Galliano que, entre caras e bocas, revelou um tino comercial apurado, fazendo explodir o faturamento da casa.

CHRISTIAN LACROIX

Christian Lacroix gosta tanto de teatro que sua carreira daria uma bela encenação digna dos grandes palcos, muito além das passarelas de Paris que o consagraram. Nascido em Arles, interior da França, em 1951, estudou História da Arte e queria ser curador de museu, mas logo correu para a capital para trabalhar com figurino de espetáculos. Acabou admitido como estilista na maison de Jean Patou e logo teve seu talento reconhecido por Bernard Arnault, que financiou a abertura de sua própria marca pelo grupo LVMH.

Eu tive a sorte de assistir a estréia de Lacroix em Paris, um sopro de vida na moda sombria japonista dos anos 80, quando seus excessos barrocos interpretavam tão bem a década do exagero, nas formas e nas cores. Seus volumes, bordados e brocados viraram símbolo de uma moda otimista e sofisticada tanto no prêt-à-porter quanto na alta-costura.

Prolífico, fora do mundo da moda, remodelou os uniformes da tripulação da Air France, criou decorações para hotéis e trens e manteve seu sonho assinando figurinos de óperas como “As Bodas de Fígaro”, de Mozart.

Nos últimos tempos, Lacroix vem lutando para manter sua arte de pé. Em sérias dificuldades financeiras, ele acaba de encontrar um generoso comprador para sua maison.

CLODOVIL HERNANDES

Tido como o mais ousado da trinca de costureiros de ouro que o País teve entre os anos 60 e 80, Clodovil Hernandes (1937-2009) dividia com seu desafeto Dener a preferência das mulheres da elite brasileira. Foi o preferido de artistas como Elis Regina e Cacilda Becker, além de desenhar para famílias tradicionais como os Matarazzo e os Diniz. Irreverente, injetou boa dose de humor e brasilidade na alta-costura nacional, onde dividia a cena com Dener. Mas ao se enveredar pelo prêt-à-porter – uma exigência de mercado daqueles novos tempos – não conseguiu o mesmo sucesso. Nos anos 80, iniciou a carreira de apresentador de TV na rede Globo e logo a polêmica virou sua marca registrada, com críticas eloqüentes a colegas de profissão e bate-bocas ao vivo. Inquieto, decidiu lançar suas agulhas e alfinetadas na política. Clodovil, que também havia sido ator e possuía registro de cantor. Foi eleito deputado em 2006 sem perder o rebolado, continuando sua saga de desavenças e excentricidades.

EMANUEL UNGARO

Discípulo de Cristóbal Balenciaga e com passagem pela Courrèges, o filho de imigrantes italianos Emanuel Ungaro costuma comparar a alta-costura à ópera: “É um ritual. Ela faz parte das grandes missas de sofisticação, elitismo, luxo e refinamento. A alta-costura não se improvisa. Ela está ligada a uma memória, ao artesanato e à excelência de um savoir-faire”. Em mais de 30 anos de métier, Ungaro construiu um estilo marcado por seus florais, com luxo e sensualidade. Grande amigo da ex-modelo brasileira Bethy Lagerdère, ele é tido como intelectual da moda parisiense e avesso a flashes. Em 2005, saiu do epicentro e vendeu sua marca, que teve a passagem-relâmpago do jovem colombiano Esteban Cortazar no comando criativo e agora dá o que falar com a contratação da bad girl e atriz americana Lindsay Lohan como consultora de moda.

GUILHERME GUIMARÃES

Gui-Gui, como era conhecido na alta roda do eixo Rio-São Paulo, formou com Clodovil e Dener o trio de ferro dos anos dourados da costura brasileira. Tinhoso e desbocado, é avesso à badalação da moda atual. “Não quero mais meu nome nos jornais, não tomo conhecimento das fashions weeks da vida nem quero desfilar meus modelos. Tudo isso eu já fiz, muito, demais, agora chega”, declarou certa vez. Gaúcho, trabalhou com Christian Dior e foi um dos primeiros brasileiros a desfilar em Nova York nos anos 60 – onde, aos 20 anos, foi capa do caderno do “New York Times”.

Guilherme Guimarães teve a fidelidade de clientes poderosas como a embaixadora Lucia Flecha de Lima, a socialite Carmem Mayrink Veiga e Lilibeth Monteiro de Carvalho. E adorava fazer figurinos de teatro para atrizes elegantes como Tônia Carrero, Natalia Timberg e Marilia Pêra, sem falar no figurino de Danuza Leão para o filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha (1967). GG completou 50 anos de carreira em 2008, vive em São Paulo e se dedica apenas a vestidos de noiva, que ele faz questão de atender uma a uma, pessoalmente, com as devidas honras da casa.

JOSÉ NUNES

Nascido em 1932 em Araraquara (SP), José Nunes começou sua carreira na Casa Vogue, em 1960. Fez sucesso com sua própria maison, localizada na rua Augusta, em São Paulo, e tem no currículo o trabalho como desenhista da Givenchy, com o próprio, em Paris. Ele faz parte da chamada primeira geração de costureiros, ao lado de Dener, Guilherme Guimarães, José Ronaldo, Ugo Castellana e Clodovil. E participou dos grandes eventos da Rhodia, que fizeram história sob o comando de Lívio Rangan.

MADAME ROSITA

A uruguaia Rosa de Libman (1904-1991) chegou ao Brasil em 1935, ano em que abriu sua primeira maison paulistana, a Peleteria Americana, na Barão de Itapetininga, então rua chic do Centro de São Paulo. Especializada em peles de vison, raposa e marta, adaptava também criações de estilistas europeus, que realizava com primor exclusivamente para uma seleta lista de clientes. Considerada a primeira-dama da alta-costura brasileira, conquistou vários prêmios, como o Sapatinho de Ouro e a Agulha de Ouro, antes de ser eleita como a primeira representante feminina da Chambre Syndicale de la Haute Couture Française. Logo adotou o nome de Mme. Rosita e se mudou para o Conjunto Nacional, na avenida Paulista, antes de se instalar na alameda Jaú, nos Jardins, onde suas câmaras frigoríficas abrigavam os mais poderosos casacos de pele do Brasil. No final dos anos 90, a butique finalmente fechou.

MARKITO

O mais boêmio dos costureiros, o mineiro Marcos Vinícius Gonçalves era figurinha fácil nas boates de São Paulo e camarins dos shows mais disputados da MPB. No início dos anos 80, vestiu de Gal Costa a Ney Matogrosso, passando por Vanusa e Simone, no primeiro show transmitido ao vivo pela Globo, em 1983.

Markito abusava do jérsei e dos paetês em suas criações, exportadas para os Estados Unidos e para as quais encomendava os serviços das bordadeiras de Uberaba, sua cidade natal, de onde partiu aos 18 anos para buscar a fama na capital paulista. É dele o figurino do clássico filme “Rio Babilônia”, de Neville d’Almeida.

Markito morreu de Aids em Nova York, aos 31 anos, em 4 de junho de 1983. Seu assistente Euripinho, mineiro como ele, herdou o negócio.

THIERRY MUGLER

Thierry Mugler nasceu em Strasbourg, na Alsácia francesa, em 1948, e partiu para Paris em 1970 para tentar a sorte como bailarino. Enquanto fazia bicos de vitrinista, começou a desenhar as peças de sua primeira grife, a Café de Paris, lançada em 1973. Dois anos depois nascia a linha com seu nome, consagrada pelas formas estruturadas dos ombros e pela cintura de vespa que tinham suas criações de pegada futurista. Fascinado pelo universo dos insetos (as mulheres adoravam se transformar em formiga atômica com seus looks) e dos filmes noir, Mugler despertou uma onda fetichista ao abusar de látex e PVC em seus desfiles, antes de ser engolido pela onda minimalista dos anos 90.

Com o zeitgeist da moda soprando em outras direções, sua Maison entrou em declínio, até que ele a vendeu. Mas seu perfume Angel continua entre os best sellers da indústria, desde o lançamento em 1992, com Jerry Hall como garota-propaganda. Pop e bem situado, Mugler também é fotógrafo e dirigiu o clipe “Too Funky”, de George Michael. Enquanto seus tailleurs vintage batem recordes de lances no eBay, ele exercita agora seu lado figurinista, emplacando colaborações com o Cirque Du Soleil e a cantora Beyoncé.

VALENTINO

Poucos estilistas trataram a mulher como verdadeiras deusas do Olimpo. Um deles é Valentino Garavani, italiano nascido em 1932. Por considerar que “nenhum homem gostaria de sair com uma mulher que parece um homem”, ele dedicou seus 45 anos de carreira, até se aposentar em 2008, a criar vestidos ultrafemininos delicadamente sensuais e extremamente elegantes. Não à toa, é o recordista dos red carpets, tendo vestido praticamente todas as estrelas do showbiz em premiações como o Oscar e a Palma de Ouro, em Cannes.

Apaixonado pelo laço e pela cor vermelha, enfileirou clássicos escarlates que, invariavelmente, tinham entradas de destaque em seus desfiles, sempre muito concorridos com primeira fila de mega celebs. Em seu desfile de adeus, numa coleção de alta-costura, 30 modelos entraram de vermelho-Valentino para saudar um dos nomes mais poderosos e longevos que a moda já conheceu.

YVES SAINT LAURENT

“Saint Laurent c’est toujours Saint Laurent” é uma frase clássica, ouvida por décadas, como sinônimo de ousadia e sofisticação no mais calculado equilíbrio. Um dos nomes mais estelares da moda do século 20, ele – assim como Chanel – mudou a forma de vestir da mulher. Sua vida pessoal é tão intensa quanto o impacto de suas criações. Talento prodígio, saiu cedo da Algéria natal e logo se tornou assistente de Christian Dior, que morreria precocemente levando YSL a assumir a maison com apenas 21 anos. Mas as coisas não eram tão simples. YSL foi convocado pelo exército de seu país, saiu de cena, foi demitido pela Dior à distância e acabou internado numa clínica psiquiátrica, com problemas que o acompanhariam até o fim da vida em 2008.

Graças a seu companheiro Pierre Bergé, ele lançou sua própria marca ao voltar para Paris em 1961 e, a partir daí, cravou seu nome no Olimpo da moda. Trouxe o exotismo para a burguesia urbana parisiense se inspirando em países como África (a saharienne de 1968), Marrocos (os caftãs dos anos 70) e Rússia (os babados ciganos do final dos 70). Provocou o establishment várias vezes: vestindo a mulher com o smoking masculino em 1967, despindo-a sob transparências ou colocando a primeira modelo negra para desfilar na temporada de Paris. Atormentado, parecia encontrar a paz em grandes obras de arte, buscando refletir esta beleza contemplativa em seus modelos, como a jaqueta Van Gogh ou o vestido Mondrian. E entre seus memoráveis figurinos para cinema está o de “A Bela da Tarde”, com Catherine Deneuve.

Talvez graças a Bergé, Yves Saint Laurent colecionou grandes criações – de arte e de sua própria moda. A primeira coleção bateu recordes em leilão da Christie’s no começo de 2009. A segunda está devidamente preservada na Fundação Yves Saint Laurent – Pierre Bergé, no mesmo endereço que foi sede de sua maison de alta-costura em Paris. Depois de ser vendida em 1998, a marca passou pela batuta de Alber Elbaz, Tom Ford e, desde 2004, Stefano Pilati.